quarta-feira, 20 de maio de 2015

Parfait the cerejas e madressilva com creme de ricotta e baunilha # Cherries and honeysuckle parfait with ricotta and vanilla cream






 Já passaram várias semanas desde a nossa ida ao Parque Natural do Alvão mas a verdade é que nem o passar do tempo bate o poder da memória e das imagens que fui clicando entre montes e vales.

Fizemo-nos à estrada num dia apagado e cinzento, começo de jornada nada auspicioso para uma fotógrafa como eu, que gosta de luz, brilho e cor. Com poucos quilómetros feitos, já eu desconfiava da minha - até então -  boa relação com S. Pedro que nunca me tinha falhado nos assuntos imprevisíveis da meteorologia,   mas enquanto íamos subindo por entre estradas serpenteantes e húmidas de chuva, contornando monte após monte, fui descobrindo naquele quase bréu um quê de mágico. A imensidão de um cenário forte, agreste e brumoso, que o barulho do vento na altitude tornava ainda mais irreal. Mas e daí? Eu já devia saber mais. Soltem-me de pé no chão na dureza das pedras enchuveiradas ou na maciez da terra quente e toda eu passo também a ser monte... e aldeia e ribeiro de água cristalina.

Pela noite o calor da lareira acesa e o jantar típico e reconfortante, regado a bom tinto, soltaram o fio à meada das palavras, que fluíram sem pressas, no arrastar vagaroso das horas tardias. Palavras sobre a magia de um dia apagado e cinzento... mas ainda assim único.

Segundo dia.
De volta às boas graças do S. Pedro. Ainda no terraço do quarto já se adivinhava o azul do céu escondido nas brumas da manhã serrana. Aqui e ali, no dissipar da névoa, fragmentos de luz a revelar as cores que cobrem o Alvão em plena Primavera. É uma coisa linda de se ver. O manto gigantesco, multicolor, com muitos tons de púrpura e amarelo, da urze e da carqueja.

Da mesa farta do pequeno almoço saltamos de novo para a estrada. O nosso teto era agora um céu azul deslumbrante, com o vento suave a dar formas lindas e estranhas às nuvens, um céu feito à minha medida. Na barragem do Alvão deixámos o carro para trás. O aqui e agora passou a ser apenas o calcar dos montes, o cantar dos pássaros e o labor frenético das abelhas. Aos poucos o perfume a flores silvestres disperso no ar passou de ténue a embriagante. O perfume era de mel, doce e aromático. Nunca o tinha sentido assim tão forte, nem mesmo no Gerês. Aprendi há muito que o bom  mel não cheira a "mel", cheira a urze e outras flores silvestres.

Para trás fomos deixando matas, pequenos lagos, ribeiros e descampados, sob a proteção do mesmo céu, azul, lindo e estranho.

Invadimos aldeias. Falamos com estranhos a transbordar hospitalidade. Partilhámos chão com ovelhas, cabras e vacas. Cedemos ao cansaço do corpo debaixo de pinheiros e carvalhos centenários. Bebemos das fontes dos trilhos. Mergulhámos o olhar em águas translúcidas como diamante líquido. Pousamos os sentidos nas Acácias em flor. Pisamos erva tenra. Galgamos pedra dura. Cruzamos pontes. Abrimos caminhos. E na hora do regresso trouxemos tudo isto e muito mais...

E agora, semanas mais tarde, ainda com o Alvão à flor da pele,  o perfume da urze e da carqueja passou a ser o da madressilva que cresce aqui bem perto de casa.

Um perfume e um parfait cremoso, com cerejas maduras, ricotta e baunilha.

Pois aqui, longe dos montes, há outras formas de inebriar os sentidos.




In English
It´s been several weeks since our trip to Natural Park of Alvão but the truth is that not even the passage of time beats the power of memory and the images that I shot between hills and valeys.

We hit the road on an unlit and gray day, an inauspicious journey beginning for a photographer like me that likes, light, glitter and color. With few kilometers made I was already suspecting my so far good relationship with St. Peter who hitherto had never failed me in the unpredictable matters of meteororlogy. And while we were driving up through winding, wet from the rain roads, contouring hills after hills, I discovered in this almost pitch black a touch of magic. The immensity of a strong scenario, rough and hazy, that the noise of the wind in the altitude made even more unreal.
But, so what? I should  known better. Unleash me, bare feet on the ground in the hardness of wet stones or the softness of the warm earth and all of me becomes the hills also, and villages and streams of crystal clear water.

By night time the heat of the fireplace and the typical and comforting dinner with a good red to boot, loose the thread of the yarn of words, that flowed leisurely in the slow dragging of the late hours. Words about the magic of an unlit, gray day.

Second day.
Back to the good grace of St. Peter. Still in the bedroom terrace one could already guess the blue of the sky hidden in the mists of the serrana morning. Here and there, in the dispelling of the fog, fragments of light revealing the colors that cover the Alvão in full Spring. It´s a beautiful thing to behold. The giant, multicolor mantle, with many shades of purple and yellow from the heather and the gorse. From the plentiful breakfast table we jumped back to the road.  Our ceiling was now a dazzling sky, with the gentle wind giving strange, beautiful shapes to the clouds, a sky made to my measure. At the dam of Alvão we left the car behind. The here and now became only the trample of the hills, the singing of the birds and the frantic work of the bees. Gradually the scent of wild flowers dispersed in the air went from tenuous to inebriating. The scent was that of honey, sweet and aromatic. I had never felt it so strong, not even in Gerês. Í´ve learned a long time ago that good honey doesn´t smell like "honey", it smells like heather and other wild flowers.

Behind we left forests, ponds, streams and open fields, under the protection of the same sky, blue, beautiful and strange.

We invaded small villages, We talked to strangers overflowing hospitality. Shared ground with sheep, goats and cows. We gave in to the fatigue of the body  under centenary pines and oaks. We drank from the fountains of the tracks. We dived the gaze into clear waters like liquid diamonds. And landed the senses in Acacias in bloom. Steped tender grass. Leaped hard stones. We crossed bridges. Opened paths. And by the time we returned, we brought all this and much more...

And now, weeks later, with the Alvão still under my skin, the scent of the heather and the gorse has become the one of the honeysuckle that grows near my home. A perfume and a creamy  parfait, with ripe cherries, ricotta and vanilla.

For here, away from the hills, there are other ways to inebriate the senses.























Ingredientes: 4 a 5 copos médios
500 g de cerejas
100 g de açúcar
2, 1/2 colheres de sopa de maizena (amido de milho)
12 flores de madressilva (podem substituir por jasmim seco mas usem um pouco menos)
100 ml de água
Creme de ricotta e baunilha:
200 ml de natas frescas
250 g de ricotta
3 colheres de sopa de açúcar
1 colher de chá de baunilha em pó ou de sementes de baunilha (raspadas de uma vagem)
Pistachios picados para decorar
Cerejas para decorar

Preparação:
*Num processador triture o açúcar com as flores de madressilva até ficarem desfeitas.
*Tire os caroços às cerejas. Num tacho junte-lhes a a água, o açúcar e a maizena, mexa bem e leve a lume médio até engrossar, vá mexendo e deixe borbulhar por 2 minutos para cozer a maizena. Tire do lume e deixe arrefecer.
*Bata as natas até começarem a ganhar volume, junte o açúcar e continue a bater até ficarm mais espessas mas não muito firmes.
*Bata o ricotta para o amaciar e junte-lhe as natas mas agora sem bater.
*No fundo de cada copo coloque uma camada de molho de cerejas e madressilva, cubra com o creme de ricotta e baunilha e decore com pistachios picados e cerejas frescas.
*Leve ao frio antes de servir.






Ingredients: 4 to 5 medium glasses
500 g cherries
100 g caster sugar
2, 1/2 tbsp corn starch
12 honeysuckle flowers (you can use dried jasmine but use a bit less)
100 ml water
Ricotta and vanilla cream:
200 ml cold whipping cream
250 g ricotta
3 tbsp caster sugar
1 tsp vanilla powder or vanilla seeds


Preparation:
*Put the sugar and honeysuckle flowers into a food processor and process until the flowers are dissolved into the sugar.
*Remove the pits from the cherries. Put them in a pot and stir in the water, sugar and corn starch. Take to medium heat until it thickens, keep stirring and let it bubble away for 2 minutes to cook the corn starch. *Remove from the heat and let it cool.
*Whip the cream until it begins to thicken, beat in the sugar until it thickens a bit more but not until firm.
*Beat the ricotta to soften it up and fold in the cream.
*At the bottom of each glass put a good layer of cherries, honeysuckle sauce, cover with the ricotta, vanilla  cream and decorate with chopped pistachios and fresh cherries.
*Put in the fridge for a couple of hours before serving.




Print Friendly and PDF

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Ovos verdes no forno # Baked green eggs




Se eu fosse uma cor provavelmente seria o verde. Não na aparência, não na forma mais fácil e direta de perceção, mas lá, por baixo de todas as camadas e sub camadas. Onde já nada é palpável e só o bater do coração marca o compasso da vida. O meu verde são as árvores, as flores e os vegetais. O pulsar da clorofila em cada sopro que devolvo ao vento. O sentir que calcar montes e vales onde só a natureza prevalece é galgar caminho para o regresso a casa. E aí tudo muda. Os meus sentidos desabrocham como as flores silvestres nos campos por onde vou passando. As cores deixam de ser baças. Os cheiros, os brilhos... e a terra renasce com uma nova força.

Há duas semanas atrás estive uns dias no Parque Natural do Alvão. Percorri todas as aldeias e vilas das redondezas numa viagem de recolha de imagens de paisagem e antropologia e ainda estou sob o efeito de um mergulho de cabeça e coração numa das zonas naturais mais bonitas de Portugal. Ainda não tive tempo para editar todo o trabalho feito mas na próxima postagem quero partilhar convosco uma parcela desse trabalho. Entretanto, e quem sabe, como inspiração dada por esses dias fora do tempo, cozinhei estes ovos. Camadas de alho francês e espinafres amaciados no calor do azeite, cobertos por um pouco de queijo mozzarella seco ralado, a leveza ácida do iogurte, ovos leitosos de codorniz e espargos tenros, que depois de irem ao forno se elevam a um petisco como poucos.

Chamei-lhes ovos verdes no forno e a receita é para vocês também :)



In English
If I were a color probably I would be green. Not in the appearence, not in the easiest, direct way of perception but there, underneath all the layers and sub layers. Where nothing is palpable anymore and only the beating of the heart marks the rythm of life. My green are the trees, the flowers and the vegetables. The pulse of clorophill in each breath that I give back to the wind. The feeling that tampling hills and valleys where only nature prevales is to walk the way to return home. And then everything changes. My senses bloom like the wilflowers in the fields that I´m passing through. The colors are vibrant. The scents, the sparkles... and the earth reborns with a new strength.

Two weeks ago I went to the Alvão Natural Park for a few days. I went through all the surrounding villages and small towns to gather landscape and antropology photos and I´m still unther the effect of this head and heart dive into one of the most beautiful natural areas of Portugal. I didn´t have the time to edit all the work done yet but Í want to share a bit of it with you on my next post. In the meantime, and who knows, as an inspiration given by these days out of time I cooked these eggs. Layers of leeks and spinach softened by the heat of the olive oil, topped with a bit of dry, shredded mozzarella, the light acidity of the yogurt, milky quail eggs and tender asparagus, that after going into the oven were elevated to a treat like few others.

I call it baked green eggs and the recipe is for you guys too :)












Ingredientes: 4 pessoas
12 ovos de codorniz
12 espargos
Folhas de espinafres
250 g de alho francês cortado em rodelas médias
2 frascos de iogurte natural
4 colheres de sopa de mozzarellla seco  ralado
6 colheres de sopa de azeite
Sal a gosto
Pimenta preta acabada de moer, a gosto

Preparação:
*Pré aqueça o forno a 190º, marca 6 do fogão a gás.
*Comece por fritar o alho francês no azeite quente até ficar macio, junte as folhas de espinafres e vá mexendo até as folhas murcharem, tempere com um pouco de sal e pimenta preta. Distribua a mistura por quatro tacinhas não muito profundas, previamente pinceladas com  azeite.
*Coloque em cada taça 3 espargos e o mozzarella por cima da mistura de alho francês e espinafres e também um pouco do iogurte (deixe um espacinho para os ovos) e tempere com sal e pimenta preta a gosto. Salpique com um fio de azeite.
*Leve ao forno por 10 minutos, abra os ovos nas taças e leve ao forno mais 4 a 5 minutos, até os ovos ficarem com as claras firmes mas as gemas líquidas.
*Sirva com fatias de pão rústico torrado.








Ingredients: serves 4
12 quail eggs
12 asparagus
250 g spinach leaves
250 g  leeks cut into thin rounds
2 pots of plain yogurt
6 tbsp olive oil
4 tbsp of shredded mozzarela
Salt to taste
Freshly ground black pepper to taste

Preparation:
*Preheat the oven to 190º, 375f, gas mark 5.
*Start by frying the leeks in the hot olive oil until tender and soft, add the spinach and season with a bit of salt and black pepper. Stir until the spinach leaves shrink. Pour the mixture into 4 small, not to deep, bowls, previously brushed with olive oil.
*In each bowl put 3 asparagus and on top the leeks and spinach mixture, scatter the mozzarella, cover with some yogurt (leave a spot for the eggs) and drizzle with a bit of olive oil.
*Bake for 10 minutes then break the eggs on top, cook for another 4, 5 minutes just to cook lightly the whites .
*Serve with some toasted slices of rustic bread.




Print Friendly and PDF

terça-feira, 21 de abril de 2015

Pudim de laranja e coco com compota de morango e limonete # Orange and coconut pudding with strawberry, verbena compote






Enquanto escrevo este texto, faço pausas para rever mentalmente tudo o que me aguarda. E vou perdendo o fio à meada das palavras, assim sem mais, esquecida no enlace do perfume quente dos pudins de laranja, coco e baunilha, que desliza pela casa.

Na sala ao lado está o caos que antecede todas as partidas. Aquele caos bom que me desgoverna o raciocínio e ao mesmo tempo me enche de entusiasmo e expectativa. Sim, é verdade, eu estou de partida para uma aventura fotográfica e parte da minha bagagem, está por agora exposta, sem cerimónia, à espera do último ok. Máquinas, lentes, cartões... chocolate com avelãs. Enfim, a parafernália completa. Uns quantos quilos extra que acrescento aos 55 que carrego em cada passada.

É bom demais calcar chão novo. Partir à descoberta. Abrir as portas da vida e deixar o ar fresco entrar... Se pudesse viveria  assim, com algum destino longínquo marcado para um futuro imediato e umas quantas pausas no caminho para voltar ao ninho.

Mas por agora o calor do forno vai fazendo a sua magia. O perfume quente de laranja, coco e baunilha paira no ar e os pudins crescem pacientemente no forno.

Porque o dia de amanhã ainda está por escrever.



In English
While I write this text, I pause to review mentally  everything that expects me. I lose the thread of words, just like so, forgotten that I am in the embrace of the hot scent of orange, coconut and vanilla puddings that slides through the house.

In the next room is the chaos that precedes every departure. That good chaos that misgoverns my thinking and at the same time fills me with excitement and anticipation. Yes, it´s true, I´m leaving for a photographic adventure and part of my luggage is by now exposed, without ceremony, waiting for the last ok. Cameras, lenses, cards... chocolate with hazelnuts. The complete paraphernalia. A few extra pounds to add to the 121 I carry in every step I take.

It´s to good to step in new ground. To go out to discover. To open the doors of life and let the fresh air in... If I could I would live like this, with a faraway destination set for the immediate future and a few breaks on the way to return to the nest.

But for now  the heat of the oven works it´s magic. The hot scent of orange. coconut and vanilla hangs in the air and the puddings rise patiently in the oven.

Because tomorrow it is still unwritten.










Receita ligeiramente adaptada de Fran Warde

Ingredientes: 2 taças baixas com 19 cm de diâmetro
50 g de farinha sem fermento
50 g de manteiga sem sal amolecida
100 g de amêndoa moída
100 g de coco ralado
100 ml de leite
1/2 colher de chá de fermento em pó
4 ovos
Raspa de 2 laranjas médias
Sumo de 4 laranjas médias
1 colher de chá de extrato de baunilha
Para a compota:
100 g de morangos cortados em quartos
50 g de açúcar
100 ml de água
1 colher de chá de maizena (amido de milho) diluída num pouco de água fria
5 folhas de limonete

Preparação:
*Pré aqueça o forno a 180º, marca 4 do fogão a gás.
*Unte duas taças de forno tal como vê nas imagens, com manteiga e reserve.
*Junte todos os ingredientes num processador ou se não tiver um, numa taça e bata tudo até ficar bem ligado.
*Verta a massa nas taças e leve ao forno por 20 a 25 minutos, dependendo dos fornos. O pudding deve ficar mole no meio.
*Para fazer a compota leve os morangos com o açúcar, a água e as folhas de limonete ao lume num tacho, deixe levantar fervura e junte logo a maizena diluída, mexa por 1 minuto e tire do lume. Deixe arrefecer totalmente.
*Tire os pudins do forno, deixe arrefecer e sirva com natas e com a compota por cima.





Recipe slightly adapted from Fran Warde

Ingredients: 2 low bowls with 19 cm diameter
50 g plain flour
50 g soft unsalted butter
100 g ground almonds
100 g desiccated coconut
100 ml milk
1/2 tsp baking powder
4 eggs
Zest of 2 medium oranges
Juice of 4 medium oranges
1 tsp of vanilla extract
For the compote:
100 g strawberries cut into quarters
50 g sugar
100 ml water
1 tsp corn starch diluted in a bit of cold water
5 verbena leaves

Preparation:
*Preheat the oven to 180º, 350f, gas mark 4
*Butter 2 oven dishes like the ones you see in the images and keep for later.
*Put all the ingredients into a food processor and process.
*Pour the batter into the prepared dishes and bake for 20 to 25 minutes. The puding must be soft in the middle.
*To make the compote put the strawberries, sugar, water and verbena leaves into a saucepan and take to the heat. Let it come to a boil and add the diluted corn strach, boil for 1 minute to thicken and stir a bit.Remove from the heat and let it cool completely.
*Removethe puddings from the oven, let them cool and serve with whipped cream and the compote on top.



Print Friendly and PDF
UA-16306440-1