segunda-feira, 29 de abril de 2013

Até ao fim da terra... # Till the end of the earth...






Estava para ser em Maio, tal como da primeira vez, mas uma série de circunstâncias pessoais e profissionais levou-nos um pouco mais cedo até aos Caminhos de Santiago.

Esta foi a terceira vez que fiz o caminho e nunca é igual. As pessoas que encontramos são sempre diferentes e até os lugares mudam de acordo com a estação do ano e a altura do dia em que lá voltamos a passar... É como viver num tempo fora do tempo. Num universo paralelo, onde por vezes acontecem coisas extraordinárias que fazem do caminho um lugar verdadeiramente mágico.

Ao final do quarto dia chegamos a Santiago e ficámos para o dia seguinte, para cumprirmos as tradições na Catedral, assistirmos à missa dos peregrinos e recebermos a benção. Depois de uma breve passagem pela Oficina do Turismo da Galiza, o regresso à estrada e o começo de uma nova aventura. O nosso destino era agora Finisterra. Aquele que até finais da Idade Média era tido como o fim da terra, lugar de lendas e mitos, onde os druidas celtas praticavam rituais pagãos e onde os conquistadores romanos terão assistido com assombro ao desaparecer do sol por trás do imenso oceano.

O Caminho Português é muito bonito mas o que vai de Santiago a Finisterra é deslumbrante. É um caminho mais solitário, já que são poucos os povoados que atravessa mas em compensação a natureza aqui é transbordante de beleza. Os pastos ondulados e verdejantes a perder de vista entre Negreira - onde passamos alguns dos melhores momentos do caminho com o hospitaleiro do Albergue Lua e da sua família  que nos receberam muito bem e cuja boa companhia nos fez deitar nessa noite à meia noite e meia depois de um dia duro de caminhada- e Olveiroa. A montanha à saída de Olveiroa. A mata atlântica já no desvio para Finisterra e por fim, a partir de Cee - Corcubión, as praias de areias finas e águas azul turquesa com pinhais imensos que quase tocam os areais.

Chegados a Finisterra, um banho e uma refeição leve ajudou-nos a recuperar forças para fazermos os últimos quilómetros da subida até ao farol, até ao km 0 do Caminho de Santiago e o lugar onde muitos peregrinos fazem questão de queimar as roupas e as botas que usaram na sua peregrinação. Dizem que este ritual simboliza um renascimento. O deixar para trás a pessoa que éramos antes do Caminho e começar uma nova vida, com a alma transformada. Mas há também quem escolha queimar algo do qual seja difícil desprender-se, como forma de desapego material. Tal como o Caminho é absorvido e vivido por cada um à sua maneira também este ritual é vivido da mesma forma que é sempre pessoal e intransmissível.

Ficámos algumas horas no cimo de uma rocha em frente ao mar. De um lado a lua cheia que já se via no céu ainda claro e em sentido oposto o sol. Um espectáculo único que eu nunca tinha visto.  O sol e a lua, frente a frente.  Lá em baixo uma fogueira com as roupas de três peregrinos irlandeses que fomos acompanhando a partir de Negreira e à nossa frente a imensidão azul para a qual, por devoção a Santiago, caminhamos durante sete dias e ao vê-la pela primeira vez o que pensei  foi: "E depois disto o quê?"
E senti uma certa tristeza. Como se tivesse chegado ao fim de algo mais do que um Caminho...

Vimos o por do sol com a luz laranja a expandir-se pelo horizonte sem fim e aos poucos a tristeza foi dando lugar à satisfação de ter conseguido chegar a mais um destino, depois de ter atravessado montes, campos e florestas, a pé.

Com a noite já a cair descemos à povoação. No dia seguinte iríamos começar a viagem de regresso a casa onde outros caminhos estariam à nossa espera...

Porque afinal de contas, o fim de um caminho é apenas o começo de um outro...




In English
It was supposed to be in May, just like the first time, but a series of personal and professional circumstances led us up a bit earlier to the Way to Santiago.
This was the third time I walked the Way and it´s never the same. The people we meet are always different and even the places change according to the season and time of day you pass through. You live in a time out of time. A parallel universe were sometimes extraordinary things happen, which make the Way a trully magical place.

At the end of the fourth day we arrived in Santiago and stayed there until the next day to fulfill the traditions in the Cathedral, witness the pilgrim´s mass and reveive the blessing.
After a brief stop by the Tourism of Galicia office we returned to the road and began a new adventure. Our destination was now Finisterre. The place that until the end of the Middle Ages was regarded as the end of the earth, a place of legends and myths, where the celtic druids practiced pagan rituals and where the roman conquerors watched with amazement the sun disappearing behind the immense ocean.

The Portuguese Way is really beautiful but the Way from Santiago to Finisterra is stunning. It´s a lonely way, since it crosses very few villages but in compensation nature here is overflowing with beauty. The green, flowing pastures between Negreira and Olveiroa. The mountain outside Olveiroa. The atlantic forest on the detour to Finisterre, and finally from Cee - Corcubión the beaches of fine white sand and turquoise blue waters, with huge pine forests close to the sand.

As soon as we arrived in Finisterre, a bath and a light meal helped us to restore our strengths to walk the last  kilometers of the climb to the lighthouse. The km 0 of the Way to Santiago and the place where many pilgrims burn the clothes and boots they used in their pilgrimage. It is said that this ritual simbolizes a rebirth. Leaving behind the person we were before the Camino and start a new life with the soul transformed. But  there are also those who choose to burn something that is hard for them to let go off, as a form of material detachment.

We stayed a few hours on top of a rock facing the sea. On one side the full moon could already be seen in the still clear sky and on the opposite side the sun. A unique sight that I had never seen before. The moon and the sun, face to face. Down on the rocks below us a fire with the clothes of the three Irish pilgrims that we met for the first time in Negreira and ahead of us the blue immensity to which, for devotion to Santiago we walked for seven days, and when I saw it for the first time I thought: "And after this what?".
And I felt a bit of sadness. As if I was at the end of more than a simple camino...

We watched the sun set with it´s orange light spreading throughout the endless horizont and bit by bit the sadness gave place to the satisfaction of being able to arrive to one more destination, after walking through hills, fields and forests.

With the night falling we descended to the village. The next day we would begin our journey back home, where others paths would be waiting for us...

Because after all, the end of a path is just the beginning of another...





Porriño e Mós



Rias Baixas



Padrón




Santiago





Ponte Maceira





Entre Negreira e Olveiroa
Between Negreira e Olveiroa


Em Olveiroa




Em Cee.



Já perto de Finisterra
Near to Finisterre











Finisterra


    ...e o Caminho continua...
    ... and the Way continues...



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12 comentários:

Ondina Maria disse...

Ano passado, nas nossas férias de fim de Junho, percorremos a costa entre Porto e Muxias, em Espanha. De carro, porque o Vel não alinha comigo em caminhadas (com muita pena minha pois adorava fazer o Caminho de Santiago como vocês fizeram). E fomo-nos apaixonando pelos locais do lado de lá da fronteira. Praias de areia branca e águas turquesa e cristalinas, ainda desertas. Florestas densas, casas bonitas, pessoas simpáticas. Apaixonamo-nos por Corcubión, onde acabamos por ficar mais do que estava destinado e dali partimos para percorrer vários caminhos. Finisterra e a Costa da Morte tem lugares de beleza extrema que nos fazem querer lá ficar, sem preocupações, com todo o tempo do mundo para aquilo que nos faz feliz. Foi sem dúvida das viagens que mais gostei de fazer. No regresso a Portugal, e ainda muito próximo de Corcubión, encontramos uma praia linda, Boca de Rio, já na povoação de Carnota.

Se quiseres, dá uma vista de olhos pelas nossas fotos: http://coentrosrabanetes.blogspot.pt/2012/09/a-primeira-semana-de-ferias-fez-se-em.html

Anónimo disse...

Fantástico. Um dia gostaria de vivenciar esta experiência, dizem que é do melhor.
Bem haja.
Guilhermina

CamomilaRosaeAlecrim disse...

Deve ser maravilhoso!! Fiquei encantada com as fotos e sonho fazer este trajeto um dia com marido!
Beijos e uma ótima semana!
CamomilaRosa

Partilhando Sabores e Receitas disse...

Que experiência magnífica! Também gostava de a fazer... As fotos estão fantásticas!
Tudo de bom!
Bj e boa semana

Na Província disse...

Também já fiz os caminhos, desde casa (Barcelos), amei e tenho que repetir, mas desta vez em Abril/Maio, visto que o fiz em Setembro.
Todos os dias passam em minha casa caminheiros, cada vez mais americanos e do norte da Europa, muito poucos portugueses!!
Um beijinhos

Joana (Palavras que enchem a barriga) disse...

Nunca fiz o Caminho de Santiago, mas gostava muito. As tuas fotos deram-me vontade de pegar na mochila e sair disparada de casa :)

Beijinhos e tem uma óptima semana :D

ana disse...

Que post fantástico! Que fotos bonitas, que descrição incrível! Adorei, adorei!! E que vontade de fazer esse caminho! Muito obrigada por esta maravilhosa partilha :)

Bombom disse...

Mónica, como sempre um excelente passeio que partilhas connosco. Gostei imenso! Adorava fazer esse percurso um dia...
Obrigada pelas fotos magníficas com que nos brindaste. bem Hajas! Bjs. Bombom

Babette disse...

Estive em Santiago na semana anterior à Páscoa e choveu todo o santo dia! Fiquei com vontade de regressar com uns dias mais solarengos. Enquanto não, ficam as tuas fotos lindas.
Babette

Jorge Guitián disse...

Eu vivo a 50 metros do Albergue Lua!
Na seguinte visita a Negreira convidamos a un café ;)

Margarida disse...

Fotografias magnificas!!

Maria Aponte disse...

What a beautiful post!

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