segunda-feira, 8 de abril de 2013

O Douro e um arroz de salmão e cidreira # The Douro valley and salmon and lemon balm rice





Eu que me conheço há já alguns anos, sei de fonte segura que em certos aspetos, nunca fui uma pessoa muito convencional, por isso não é de estranhar que em vez de ter ido primeiro a Resende e vir de lá inspirada para fazer umas cavacas, comecei antes por fazer as cavacas e depois é que fiquei inspirada para ir a Resende. E foi por essa razão e sem mais, que nos fizemos à estrada.

Pelo caminho curvas e contra curvas que no início serpenteiam  montes cobertos por eucaliptos. A paisagem aqui é monótona, de um verde escuro quase sem vida. Mas depois um ponto de luz, vê-se uma copa redonda coberta por folhas ainda pequeninas e muito verdes, que de tão tenras filtram o sol como se fossem feitas de papel de seda. Depois mais uma. E outra. Até que os eucaliptos desaparecem e ficam só os carvalhos com as folhas a despontar, que pintam a paisagem com uma mistura de  muitos tons: Verdes, vermelhos, castanhos, amarelos...

Quase a chegar a Resende  as cerejeiras com as primeiras flores, muito brancas, que ao longe parecem tufos de algodão. Rios e ribeiros atravessados por pontes antigas de granito rugoso e já gasto. Montes cobertos por carvalhais, cerejeiras, laranjais, vinhas e socalcos. E ao fundo o rio Douro, escuro e lamacento, ainda com "cara" de Inverno, da muita chuva que tem caído.

Por fim Amarante. Fomos a pé pelo centro histórico que em véspera de Páscoa estava bastante animado. Turistas e famílias inteiras reunidas para a festa que marca a Primavera. A rua 31 de Janeiro, estreita e pitoresca, com a ponte de S. Gonçalo ao cimo, das mais bonitas de Portugal. Do outro lado do Tâmega a igreja e o convento de S. Gonçalo. E antes do regresso a casa um café na Confeitaria da Ponte que cheirava deliciosamente a pão de ló ainda quente. Não comi nem comprei doces, que isto de ir a Amarante entre uma fornada de cavadas de Resende e as expectativas gastronómicas de um Domingo de Páscoa não deixa espaço para muito mais açúcar. Mas não resisti a olhar e a admirar os doces conventuais, as cavacas de Resende que também lá estavam em grandes blocos de pão de ló com calda de açúcar, prontos a serem cortados e os pães de ló "normais",  ainda quentes. Ali tudo era ovos, açúcar e tradição.

No regresso a casa trouxe ainda nas mãos o perfume da cidreira que encontrei já fora de Amarante, em alguns caminhos por onde andei. É um dos meus preferidos, a par com o da pimenta preta, da noz moscada e da canela. Um pouco de inspiração para a semana que estava quase a começar.
Os dias que se seguiram foram de reajuste ao início das aulas e à vida de todos os dias, com refeições fáceis e um pouco mais leves, entre elas este delicioso arroz de salmão aromatizado com o perfume cítrico e fresco da cidreira, que todos os anos deixo na terra até que as sementes se espalhem livremente e voltem a produzir novas plantas na Primavera seguinte. Sim, eu sei. Podia fazer as coisas da forma "normal" e semeá-las eu e acreditem que tentei mas nunca com bons resultados, por isso, agora deixo a natureza seguir o seu curso. Afinal de contas e tal qual como vos disse antes, em certos aspetos nunca fui uma pessoa muito convencional ;)




In English
I, that know myself for quite some years now, know for a fact that In some aspects, I was never a conventional person. Therefore isn´t surprising that instead of going first to Resende to get inspired to bake some cavacas, I started by baking the cavacas which  inspired me to go to Resende. And so, without more, we hit the road.

Along the way twists and turns that in the beginning weave the hills covered with eucalyptus. The landscape here is dull, dark green, almost lifeless. But then a point of light, you see a round canopy covered with leaves very tiny and very green, so tender that they filter the sun as if they were made of tissue paper. And then one more. And another. Until the eucalyptus disappear and only the oaks remain, with leaves blunting, painting the landscape with a mixture of many colors: Green, red, brown, yellow...

Near Resende the cherry trees with the first blossoms, very white, that by far semmed like cotton tufts. Rivers and streams crossed by old, rough bridges made of granite. Hiils covered with oaks, cherry trees, orange groves, vineyards and terraces and down, below, the river Douro, dark and muddy, still with Winter´s "face" because of the last few weeks pouring rain.

Finally Amarante. We walked through the historical center, that on Easter´s eve was quite lively. Tourists and families gathered for the feast that marks the Spring. The 31 de Janeiro street, narrow and quaint, with the bridge of S. Gonçalo at the top, one of the most beautiful of Portugal´s old bridges. Across the Tâmega river the church and convent of S. Gonçalo. And before we returned home, a stop for a coffee at Confeitaria da Ponte which smelled deliciously of still warm pão de ló. I didn´t eat or even bought any conventual sweets, going to Amarante between the baking of a batch of cavacas and the gastronomic expectations of Easter Sunday, doesn´t leave much room for more sugar. But I could not resist to look and admire the beautiful sweets, the Resende´s cavacas, large pieces of pão de ló (sponge) covered with sugar syrup and ready to be cut, and the "regular" pão de ló still warm. Almost everything in there was eggs, sugar and tradition.


On our return home I brought still in my hands the perfume of lemon balm, that I found along some paths we walked outside Amarante. It´s one of my favorites along with the ones of black pepper, nutmeg and cinnamon. A bit of kitchen inspiration, for the week that was about to begin.
The days that followed were of readjustment to the beginning of school and everyday life, with easier and a bit lighter meals, which included this delicious salmon rice, flavored with the citrus and fresh scent of lemon balm, which every year I leave in the ground until the seeds fall out and spread freely, to produce new plants the following Spring. Yes, I know. I could do things the "normal" way and sow them myself, and believe me I´ve tried but never with good results, so I just let nature take it´s course.
After all and is just as I told you before, in some aspects I was never a very conventional person ;)





















Arroz de salmão e cidreira

Há uns anos apanhei uns pés de cidreira no Gerês e plantei-os na horta. Desde antão, por altura da Primavera ela volta a nascer em tudo o que é canto. Só preciso de recolher os vários pés e voltar a plantá-los num sítio só. É uma erva aromática e medicinal, com propriedades calmantes, anti-depressivas, digestivas e tónicas (coração e cérebro). Uso-a em chás, para aromatizar doces e também em pratos salgados.
Podem fazer o caldo com bastante antecedência e em maior quantidade para congelar (em porções pequenas) e usar quando quiserem. Se não tiverem cidreira fresca usem cidreira seca (só para aromatizar o caldo) mas de boa qualidade, de preferência biológica.


Ingredientes: 4 pessoas
2 lombos de salmão
400 g de arroz agullha
1 molho de cidreira fresca (use apenas as folhas)
1 cebola pequena finamente picada
3 colheres de sopa de azeite
1 dente de alho ralado
Sal a gosto
Pimenta preta acabada de moer, a gosto
Para o caldo de salmão:
2 lt de água
1 cabeça de salmão
1 cebola
3 hastes de cidreira fresca
Grãos de pimenta preta
1 folha de louro
1 haste de salsa
Sal a gosto


Preparação:
*Faça o caldo: Numa panela coloque todos os ingredientes para o caldo, deixe levantar fervura, baixe o lume para o mínimo e deixe cozinhar por 1 hora com o tacho semi tapado. Nos últimos 5 minutos de cozedura junte os lombos de salmão. Cozinhe-os apenas 5 minutos, retire-os do caldo, e reserve-os num prato tapado.Tire o caldo do lume, coe e reserve.
*Faça um refogado leve com a cebola, junte o alho, deixe refogar alguns segundos só para libertar o aroma e junte a água do caldo (3 a 4 vezes o volume de arroz, dependendo de como o prefere, mais ou menos malandro).
*Deixe levantar fervura e junte as folhas de cidreira e o arroz. Tempere de sal e pimenta a gosto.
*Quando o arroz estiver praticamente cozido (12 a 15 minutos) junte o salmão feito em lascas e mexa com um garfo para não partir os grãos nem desfazer o salmão. Junte um pouco mais de caldo se achar que precisa e retifique os temperos.
*Pode congelar o caldo que sobrar para usar mais tarde.
*Sirva com folhinhas de cidreira e se gostar um pouco de sumo de limão.



Salmon and lemon balm rice

A few years ago I brought lemon balm from Gerês and planted it in my kitchen garden. Ever since, when Spring arrives it grows back everywhere. All I have to do is gather all the plants and replant them in one  spot. It´s an aromatic and medicinal herb, with calming, antidepressant, digestive properties, it is also a good tonic for the heart and brain. I use it in teas, to scent desserts and in savoury recipes.
You can make the stock in advance and freeze it in small portions to use whenever you want. If you don´t find fresh lemon balm use dried (to scent the stock), of good quality, preferably organic.

Ingredients: serves 4
2 salmon fillets
400 g long grain rice
1 bunch of fresh lemon balm
1 small onion finelly chopped
3 tbs olive oil
1 garlic clove,minced
Salt to taste
Black pepper to taste (freshly ground)
For the salmon stock:
2 lt water
1 salmon head
1 onion
3 sprigs of lemon balm
A few black peppercorns
1 bay leaf
1 sprig of parsley
Salt to taste

Preparation:
*Make the stock: Put all the ingredients inside a pan and take to the heat. As soon as it comes to a boil, reduce the heat to the lowest and simmer for 1 hour with the pan semi covered. At the end of the cooking add the salmon fillets to the stock and cook just for 5 minutes, remove from the pan and reserve on a covered plate. Remove the stock from the heat and strain.
*Cook the onion in the hot olive oil until translucent, add the garlic and cook for a few seconds just to release the scent. Add the stock (3 to 4 times the amount of rice, it depends on how you like it, more or less watery).
*As soon as it comes to a boil, stir in the rice and the lemon balm leaves. Season with salt and black pepper to taste.
*When the rice is nearly cooked, add the roughly flaked salmon fillets and stir carefully with a fork so you don´t break the grains. Add a bit more stock if you think it needs it and adjust the seasonings.
*You can freeze the remaining stock to use later.
*Serve with small fresh lemon balm leaves and a squeeze of lemon juice.



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10 comentários:

Ondina Maria disse...

Não há nada como deixar a Natureza fazer o seu trabalho. Ninguém o faz tão bem como ela. Nunca me lembrei de juntar cidreira ao salmão. Gosto de endro, é uma combinação maravilhosa, mas de facto os sabores citricos resultam bem com o salmão, e acabaste de me dar uma bela ideia :)

Partilhando Sabores e Receitas disse...

Que fotos lindas! A Natureza é linda e maravilhosa... Ainda bem que podemos contemplar tudo o que ela nos dá.
Esse salmão está perfeito e com uma apresentação fantástica!
beijinhos e boa semana

A Meu Gosto disse...

Que fotos bonitas, muitos parabéns!
beijinho

Joana (Palavras que enchem a barriga) disse...

Adoro o Douro, acho que é uma das zonas mais lindas de Portugal :D As tuas fotos fazem-lhe bem justiça ;)

Esse aroz deixou-me mesmo a salivar, que aspecto delicioso :D

Beijinhos e tem uma óptima semana! :D

Mafalda disse...

Fotografias e textos lindos...
bjs

Hannah disse...

Such beautiful photography and enchanting writing!

Ariana disse...

Como é linda a minha Cidade - Amarante.

Muito Obrigada por publicar essas fotos!!!!
Espero que tenha provado os Doces Regionais. Divinais!

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Babette disse...

Que fotos maravilhosas, Mónica!
Viajamos contigo e com a tua sensibilidade.
Babette

Bombom disse...

Que viagem maravilhosa que fizémos contigo por terras nortenhas! Com as fotos excelentes que documentam o magnífico texto que nos ofereces e um excelente almoço de Arroz de Salmão e Cidreira, fica o passeio completo! Uma maravilha!
Lá na aldeia tenho Erva Cidreira no quintal "a dar com um pau", mas só costumo usar em chá. Seco-a à sombra para trazer para Lisboa, mas só gosto mesmo do chá, com ela fresca. Anotei a receita do Arroz para fazer em breve (vou para a aldeia na próxima semana) e depois digo-te se consegui agradar ao meu "comensal" (he,he). Bjs. Bombom

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